Entrevista: A Teologia do Holocausto

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Livro explora uma complexa questão:
“Onde estava Deus durante o extermínio de judeus?”
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Por Márcia Junges
 
Como compreender que na pátria de Goethe e Beethoven tenha florescido uma ideologia assassina, movida pelo ódio e que matou milhares de pessoas “indesejáveis”? O que esse acontecimento provocou na estrutura das religiões? É a partir dessa perspectiva que o jornalista e filósofo Ariel Finguerman escreveu o livro “Teologia do Holocausto”, fruto de seus estudos na Universidade de Tel Aviv e na Universidade Hebraica de Jerusalém.
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Finguerman, em Israel

 

Segundo Finguerman, brasileiro radicado em Israel há mais de 10 anos, uma das maiores reflexões de sua obra é o questionamento de onde estava Deus enquanto os campos de concentração espalhavam o terror entre seus prisioneiros. “A Bíblia não garante um livre arbítrio absoluto ao ser humano, então, se seguimos a Bíblia simplesmente não podemos explicar o nazismo como um livre arbítrio absoluto”, explica. “A tradição judaico-cristã aposta num Deus ativo e justo, portanto cada nova catástrofe coloca esta questão novamente no centro do debate”.

O que é a Teologia do Holocausto? Quais são suas especificidades em relação à teologia tradicional?
Teologia do Holocausto é o nome que se dá para o conjunto das reflexões a respeito do massacre nazista e seu impacto nas estruturas da religião. Há ali pensadores judeus, cristãos e acadêmicos em geral. É um campo de reflexão que existe bem assentado nos EUA, Europa e Israel, mas pouco debatido no Brasil. O objetivo do meu livro foi trazer este debate para o país.

Quais são as grandes perguntas religiosas que o Holocausto despertou?
O Holocausto abalou algumas dos nossos mais fundamentados pilares da religião. Tanto judaísmo quanto cristianismo acreditam numa divindade que se preocupa com os seres humanos. A Bíblia diz que a divindade pune os perversos e abençoa os justos. Afirmações como estas foram desafiadas pelos fatos que se passaram nos guetos e campos de concentração nazistas.

Em que aspectos essa obra analisa “onde estava Deus” enquanto ocorria o Holocausto?
Esta é uma questão que provavelmente nunca poderemos responder. Podemos apenas abordá-la com nossos instrumentos teóricos da teologia. A Bíblia nos diz que Deus “oculta sua face”, isto é, afasta-se eventualmente dos assuntos mundanos, tanto como punição ao pecado quanto pela própria característica da divindade. É um Deus que eventualmente se distancia de nós. É uma forma de responder onde Ele estava.

Em que sentido é um desafio conciliar o massacre nazista com uma religião que define a Divindade como justa, boa e preocupada com assuntos humanos?
Após grandes tragédias da história, desde um tsunami violento até a queda de um avião ou um massacre de civis, retornamos a este desafio. A tradição judaico-cristã aposta num Deus ativo e justo, portanto cada nova catástrofe coloca esta questão novamente no centro do debate.

Quais são suas reflexões fundamentais sobre o livre arbítrio a partir do Holocausto?
Se entendemos o ser humano como dotado de livre arbítrio, um dom doado pela própria divindade à humanidade, então podemos explicar o fenômeno nazista sem comprometer Deus. Afinal, Hitler chegou ao poder através de eleições democráticas e limpas. Mas o ponto é que a Bíblia não garante um livre arbítrio absoluto ao ser humano. Lembremos o episódio do faraó do Êxodo, que quis deixar os israelitas saírem do Egito, mas Deus como que invadiu sua mente para “endurecer seu coração”. Então simplesmente não podemos explicar o nazismo por um livre arbítrio absoluto, se formos seguir a Bíblia.

 

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Em que sentido o judaísmo e o cristianismo foram desafiados de formas diferentes a partir desse fato histórico?
Realmente, o desafio foi diferente. Para o judaísmo, o nazismo representou uma contestação teológica, ao colocar em questão a ideia de um povo escolhido amado por Deus. Também representou um desafio prático, de como seguir adiante após perder um terço do povo judeu de forma brutal. Já o cristianismo foi desafiado pela questão de como explicar o aparecimento de uma ideologia assassina, talvez a mais radical da história, no seio da civilização cristã ocidental.

Pode-se dizer que o Holocausto abriu uma frente de diálogo entre judaísmo e cristianismo?
Sem dúvida. A Shoá impactou tremendamente a consciência ocidental. Percebeu-se até onde podem ir ideologias que haviam surgido pouco antes, no século XIX, como o racismo ou o nacionalismo extremado. Por conta do Holocausto e da violência generalizada da Segunda Guerra Mundial, o colonialismo foi colocado em xeque e foi criada a ONU. Também os líderes religiosos se conscientizaram da necessidade de controlar extremismos religiosos e da importância do diálogo entre as fés.

Em que medida o diálogo inter-religioso entre judaísmo e cristianismo pode trazer avanços rumo à paz e à fraternidade mundiais? Esse diálogo avançou desde o final da guerra, em 1945?
Durante dois mil anos, o relacionamento entre judaísmo e cristianismo foi de conflito verbal e físico, realmente uma história triste. Mas vivemos um novo tempo de diálogo e amizade. As cabeças estão mudando, sem que se precise abrir mão de crenças. Penso que isso é bem melhor, algo que devemos fazer em nome das futuras gerações.

Como podemos compreender o paradoxo de que o Holocausto tenha ocorrido dentro da cultura europeia cristã?
É difícil compreender isto e esta é mais uma faceta que torna o Holocausto um caso tão exemplar. Pois se tivesse acontecido numa cultura atrasada, sempre poderíamos dizer que se tratou de um incidente na História, fruto de falta de civilização. Mas o Holocausto foi perpretado por uma cultura avançada, a mesma que nos deu Goethe e Beethoven. É uma grande lição, de que a barbárie pode acontecer vitualmente em qualquer lugar do mundo, também no Brasil ou em Israel.

Como analisa o posicionamento de Pio XII e da Igreja Católica da época em relação ao Holocausto?
Esta é uma questão complexa e difícil de ser equacionada. De um lado, o nazismo em sua época despertou certa simpatia, especialmente antes de se tornar uma ideologia assassina, por seu anticomunismo. Havia um temor do avanço da ideologia ateia dos soviéticos, que perseguia igrejas, e Hitler parecia um tipo de solução. Havia também até 1942 a ameaça real de vitória nazista sobre toda a Europa. Some-se a isso um histórico de antissemitismo na Europa de pelo menos mil anos, havia ali um ódio que hoje nem imaginamos. Tudo isso levou a uma passividade geral quando os nazistas começaram a literalmente caçar judeus. Por outro lado, podemos imaginar que se o Papa Pio XII tivesse condenado abertamente a perseguição, talvez tivesse mudado a história. Basta lembrar que o próprio Hitler nasceu numa família católica.

Vivendo em Israel há mais de uma década, como avalia os impactos do Holocausto na vida e na memória do povo judeu?
Aqui em Israel a memória do Holocausto tem um impacto enorme na vida nacional. Há ainda cerca de 200 mil sobreviventes entre nós. Aos poucos eles estão desaparecendo, mas os psicólogos falam da “segunda geração” e da “terceira geração” de sobreviventes, ou seja, jovens israelenses descendentes destas pessoas continuam impactados pelo Holocausto. Há também um impacto político muito importante. Cada vez que um líder árabe ou muçulmano menciona a “destruição de Israel”, isto bate forte na psique nacional e provoca uma reação muito forte, às vezes até desproporcional.

 

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Publicado originalmente em IHU On-Line