A Arte do Perdão

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Judeus de todo o mundo estão vivendo os chamados Dias Temíveis, que acontecem entre o Rosh ha Shaná (Ano Novo) e o Yom Kipur (Dia do Perdão). Interessante notar que, na Torá, o termo em hebraico para esta data está no plural, Yom ha Kipurim (Dia dos Perdões). Uma interpretação é que antes de começar o novo ano devemos ser perdoados por dois tipos de pecado: aqueles contra Deus e os que cometemos contra nossos irmãos.

Os pecados contra Deus são expiados através de orações e jejum. Já aqueles contra nossos semelhantes requerem não apenas um arrependimento sincero, mas também o ato de procurar quem possamos ter prejudicado no ano que passou e pedir-lhe que nos perdoe. Esta não é uma tarefa simples para ambas das partes. Na verdade, pedir e conceder perdão é algo tão árduo que, para cumprirmos esta obrigação milenar, tivemos de aperfeiçoar a prática ao nível de arte, a Arte do Perdão.

Em primeiro lugar é preciso ter em mente que, no fim das contas, somos os responsáveis por nossos atos. Ninguém mais. Se uma pessoa errou, cabe a ela a obrigação de reconhecer o erro, arrepender-se, admitir sua culpa diante de quem foi prejudicado e pedir seu perdão. Como se pode perceber, estes são dias quem todo e qualquer orgulho ou soberba devem ser deixados de lado. Pais devem humildemente pedir perdão aos filhos, patrões aos empregados, mestres aos alunos. Pois, segundo o judaísmo, até que o ser humano nos perdoe por nossos erros, nem o Todo Poderoso poderá fazê-lo.

É verdade que esta deveria ser uma rotina diária de cada um, mas o fato de durante estes dias nos sentirmos coletivamente obrigados a descer do pedestal e buscar o perdão alheio provoca na comunidade um movimento intenso, belo e o que é melhor, de mão dupla. Sim, porque o mesmo judaísmo que nos obriga a pedir perdão também demanda ao outro que nos conceda. E isto também é uma arte.

Um dos recursos que utilizamos para perdoar hoje o que até ontem parecia imperdoável é simplesmente agir como se o caso estivesse superado. Mesmo não seja verdade no momento, se nos forçamos a apertar a mão daquele que nos pede perdão, com o tempo o próprio rancor se desvanece e acaba sumindo.

Ter todos os anos um período dedicado a pedir e conceder o perdão é algo que há séculos auxilia o povo judeu a manter fortes seus laços comunitários. Somos poucos e temos historicamente muitos inimigos. Não podemos nos dar ao luxo de vermos relações entre amigos e familiares serem permanentemente esgarçadas por desavenças que são frutos de nossas imperfeições como seres humanos. Por isso, em todo início de ano judaico é tocante observar pessoas que até há pouco sequer se falavam voltando a conviver em harmonia.

O mundo atual é um campo fértil para o ódio e o ressentimento. Basta uma campanha política, uma disputa comercial ou até mesmo uma frase mal colocada nas redes sociais para considerarmos antigos amigos como eternos inimigos. Pedir e conceder perdão é uma arte que deve ser ensinada e praticada por todos, pelo bem de todos.